Poucos se lembram: 19 de novembro é o Dia Nacional de Combate ao Racismo. Um mapa da população negra no mercado de trabalho, elaborado pelo Dieese, acaba de ser publicado pelo Instituto Sindical Interamericano pela Igualdade Racial que, no Brasil, reúne a CUT, a CGT e a Força Sindical.

No Brasil, os negros trabalham mais e ganham menos que os brancos, têm carga horária maior, fazem mais horas-extras e perdem seus empregos com mais facilidade. Em 1998, o desemprego entre os negros era, em São Paulo, de 22,7%. Entre os brancos, 16,1%. Em nosso país, não se combate a discriminação racial com o mesmo empenho com que se critica a injustiça social. Em âmbito nacional, a média salarial dos brancos é de R$ 734. Dos negros, R$ 344.

O preconceito ao negro não parte só de brancos e amarelos. Parte deles próprios. De cada 100 negros, 83 não assumem sua condição racial. Embora o Brasil seja a segunda nação negra do mundo, depois da Nigéria, aqui só 44% da população (68 milhões) se declaram negros. Há pelo menos 55 deputados negros na Câmara, que abriga 553 parlamentares. Mas só 25 se assumem como tal.

A abolição da escravatura cometeu o erro de impedir o acesso do negro à terra. Por isso, no Brasil, a terra é deles (ou “nostra”), dos imigrantes europeus, e não nossa. Os descendentes de escravos ficaram duplamente marginalizados: por serem negros e por serem pobres. Entre os 20% mais pobres da população brasileira, 69,2% são negros.

De cada grupo de 2.000 crianças carentes, 1.600 são negras. Dados do IBGE indicam que 44% da população brasileira é negra e ocupa apenas 5% das vagas na universidade. As chances de um branco ingressar na universidade são de 43%. A do negro, 18%.

O mito da democracia racial no Brasil cai por terra quando se constata que 73,45% das mulheres no mercado de trabalho são negras, mas só 60% assalariadas. As demais trabalham em regime semi-escravo ou como empregadas domésticas, sem carteira assinada, férias e direitos assegurados. E não são raros os patrões que se dizem cristãos.

Na região metropolitana de São Paulo, o tempo de procura de trabalho para desempregados com mais de 40 anos é de 57 semanas para o negro e de 50 semanas para os demais. O trabalhador negro ocupa postos de trabalho mais precários e quando é assalariado sofre mais a instabilidade no emprego. A jornada de trabalho do negro é de 44 horas semanais, enquanto a dos não-negros é de 42 horas. Os afrodescendentes ingressam mais cedo no mercado de trabalho e permanecem mais tempo.

Desde a Constituição de 1934, discriminação racial é crime no Brasil. Agora, inafiancável. Ainda assim, são inúmeras as artimanhas para manter a discriminação. Basta ver nos jornais a procura de funcionários “de boa aparência”. Em muitas empresas, as entrevistas se constituem no filtro da segregação. A lei deveria assegurar, como critério objetivo, os testes de habilitação técnica/profissional.

Na publicidade, são raros os modelos negros, como o bebê da Parmalat, exceto rebolantes mulatas (termo que vem de mulas). A linguagem trai nossa suposta ausência de preconceito, pois nem nos lembramos que negro é raça e preto é cor. Com freqüência falamos ou ouvimos dizer que “fulano denegriu”, sem prestar atenção ao significado do verbo denegrir.

Há uma peça de Jean Genet na qual dois negros cessam o diálogo e começam a inspirar fundo, pressentindo um odor estranho. Súbito, encaram a platéia e, um deles, exclama: “Já sei. Isso é cheiro de branco”.

A escola tem importante papel no combate ao racismo. Não se trata de ficar na retórica sobre a dignidade de todos os seres humanos. É preciso levar o estudante a refletir sobre o modo como ele e sua família se relacionam com a cozinheira, a faxineira, o porteiro do prédio, o manobrista, o camelô do semáforo ou a criança que encosta o rosto na janela do carro, seja negro ou não.

Essa é a real paisagem do Brasil. Uma criança (des)educada com o poder de gritar com a empregada pode, amanhã, ser o adolescente que se sente no direito de queimar um índio vivo ou disparar uma arma contra a platéia de um cinema. Então, será tarde demais, como para os alemães que acreditaram na superioridade da raça ariana ou os militares brasileiros que adotaram a tortura como método sistemático de repressão política.

Em uma de suas passagens ao programa “Altas Horas” na rede globo o rapper Emicida expôs sua visão sobre o que acontece no Brasil, o resultado, confira você mesmo:


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Rodrigo Silva
Fundador e Editor | Quase Publicitário. Embaixador de Deus. Fã de café.