Criador do
primeiro personagem rapper dos quadrinhos

01 -Primeiramente vamos
conhecer um pouco o artista: Quando surgiu a ideia de seguir carreira como
cartunista e a quanto tempo segue nessa carreira ?
Marcio Baraldi - Como vão, galera do
Rap Nacional, tudo bem? Muito obrigado pela oportunidade de trocar ideia com
vocês. Bom, cartunista é que nem músico, a gente já nasce com essa vocação, com
algum talento, e vai desenvolvendo ao longo dos anos até virar profissional. Eu,
com cinco ou seis anos, já desenhava compulsivamente, enchia cadernos e mais
cadernos com personagens e histórias que eu mesmo bolava.Tava na cara que eu ia
ser desenhista profissional.Nasci no ABC paulista e vim de uma família
proletária, então tive que começar a trabalhar cedo. Com 14 anos eu já estava
na profissão. Comecei como cartunista no Sindicato dos Químicos do ABC, pois o
sindicalismo sempre foi uma coisa muito forte na região, basta lembrar que o
Lula e muitos ministros dele (como o Luis Marinho, por exemplo), começaram suas
carreiras políticas como sindicalistas no ABC. Isso pra mim foi muito bom,
porque me tornou um cara bastante politizado e eu sempre transmiti essa
militância política para o meu trabalho.
02
- Você desenha personagens para algumas revistas de rock,
fale um pouco sobre:
Marcio Baraldi - Eu era o típico roqueiro suburbano, peguei
a fase mais politizada do punk rock, que era muito forte lá no ABC, quando eu
era adolescente. Aí, em 1996 eu criei os personagens Roko-Loko e Adrina-Lina um
casalzinho roqueiro, para a revista Rock Brigade.Eles completaram 15 anos de
publicação ininterrupta neste ano.Também faço o Maluco e Beleza, dois roqueiros
durangos da periferia, para a revista Roadie Crew e o Guerrilheiro da Guitarra,
um roqueiro guerrilheiro que vive detonando as rádios e TVs que só tocam jabá. Também
desenho para a revista digital Dynamite, que durante muito tempo teve uma seção
fixa de rap do DJ Nilson Rizada. Enfim, quando o rock estava no auge comercial,
há uns dez anos atrás, cheguei a desenhar para onze revistas: nove nacionais,
uma do Equador e uma de Portugal! Depois da revolução da MP3 e da internet,
esse mercado de revistas impressas deu uma encolhida forte.
03
- Sobre o "Rap Dez", como surgiu a ideia de criar um personagem
voltado para o meio do rap/hiphop? comente um pouco sobre o personagem:
Marcio Baraldi - O Rap Dez é o
primeiríssimo personagem rapper dos quadrinhos mundiais.Você já viu outro? Eu o
criei em 2003 para a Viração (www.viracao.org), que é uma revista politizada
para adolescentes. Uma revista mensal muito legal que fala sobre drogas, sexualidade,
política,conjuntura, ecologia, etc. E, portanto, eu precisava de um personagem
que fosse jovem,dinâmico e ao mesmo tempo politizado pros leitores se
identificarem. Aí bolei uma turma de adolescentes: um skatista,uma menina
intelectualzinha, e no meio deles tinha um menino negro rapper, que só falava
em versos.Todos os diálogos dele são em rimas. Era o Rap Dez e ele acabou se
destacando na turma, os leitores gostavam mais dele. Aí eu o coloquei como
titular da história e os outros personagens como coadjuvantes. E ficou perfeito,
porque é difícil você ver personagens negros nos quadrinhos, que sejam os
titulares e não coadjuvantes. E até onde eu sei, nunca vi nenhum personagem
rapper e eu acabei bolando o primeiro da história. E estou provando que o Rap e
os quadrinhos podem dar uma mistura muito legal e didática, inclusive. Estou
provando que dá pra fazer rap em quadrinhos e que fica muito legal. Com essa
mistura você faz o público de rap gostar de quadrinhos e o público de
quadrinhos gostar de rap!
04 - Você tem alguma relação
com o Rap e o grafite?
Marcio Baraldi - Eu
grafitei bastante quando era adolescente em Santo André/SP. Mas ainda era um
esquema mais simples e precário. Eu fazia uns desenhos recortados com estilete
em papelão e usava como "máscaras" para grafitar, na linha do genial
Alex Vallauri, que foi um pioneiro do grafite no Brasil.Nos anos 80, São Paulo
vivia forrada dos grafites do Vallauri, ele ajudou a criar a identidade
cultural paulista dos 80s. Os meus grafites até que ficavam bem legais também. Teve
uma época que Santo André ficou forrada deles (risos). Mas foi só naquela
época, depois eu entrei na faculdade de Artes Plásticas, passei a me dedicar ao
cartum e não tive mais tempo pra isso. Eu sempre fiz muitos amigos músicos,
inclusive de rap, mas eu só fui me aproximar mais da cultura Hip Hop quando
criei o Rap Dez mesmo. Mas eu gosto de Racionais, Pavilhão 9 e de bandas que
misturam rap com rock como o Planet Hemp, o Rage Against the Machine
(politizadíssimo!) e o saudoso Gueto, de São Paulo. O Gueto foi uma das
primeiras bandas no mundo a misturar rap com rock, em 1985 eles já faziam isso,
era genial,uma banda a frente de seu tempo que gravou dois LPs excelentes e foi
muito subestimada na época. Aliás, possivelmente eles fizeram isso antes do RUN
DMC regravar "Walk this Way", do Aerosmith.
05 - Observamos que utiliza
bastante da rima nos quadrinhos do "Rap Dez", é você mesmo quem
desenvolve os textos?
Marcio Baraldi - A
maioria das historias são minhas, mas os versos finais são todos meus. É que o
Rap Dez tem uma sacada legal que é a seguinte: durante os primeiros anos eu
escrevia tudo, mas aí a moçada que lia a Viração começou a mandar ideias de
histórias pro personagem, com rimas e tal. Então eu passei a aproveitar as ideias
deles nas histórias. Eu pego o texto que eles mandam, dou uma melhorada nas
rimas e desenho os quadrinhos encima delas. É outro lance original, pois acaba
sendo um quadrinho interativo, feito com a participação dos leitores. Mas eu
gosto muito de poesias e rimas, sempre me aventurei a escrever, gosto dos repentistas
e da literatura de cordel nordestina, que, de certa forma, são os pais do rap
moderno. E, antes de criar o Rap Dez, eu já tinha feito várias outras histórias
todas em versos, para outras revistas. Sou apaixonado por versos e é um negócio
que eu vou fazer até morrer.
06 - Pelo jeito você tem um
olhar bem crítico e observador. Onde busca inspiração para os temas abordados?
Marcio Baraldi - No
cotidiano, nas notícias do dia a dia. Eu sou chargista profissional há mais de
20 anos, então estou acostumado a pegar as notícias do dia e criar humor
político encima delas. O chargista faz no papel o que o rapper faz no
microfone: pega um fato, uma noticia e faz um discurso crítico e demolidor
encima dela. Critica o racismo, a corrupção, a violência, as drogas, as
guerras, a falsidade, a manipulação da mídia, etc. Foi fazendo o Rap Dez que eu
descobri que as duas profissões têm muito em comum, tanto o rapper como o
chargista existem pra denunciar os problemas do mundo!
07 - Finalizando deixe um
recado pra galera do Rap/HipHop do Brasil:
Marcio Baraldi - Muito
obrigado pela oportunidade. Quero dizer a todos que continuem construindo uma
mídia alternativa no Brasil através da internet, da música independente, do Hip
Hop, dos quadrinhos, dos fanzines, etc. Já que a grande mídia nunca abriu suas
portas para a cultura das ruas, independente, vamos todos invadir a web e
conquistar cada vez mais espaço! Sucesso e saúde a todos e não percam o senso
crítico jamais! Visitem meu site: www.marciobaraldi.com.br Abraços!